Procurando o amor online

A ciência aponta como usar a tecnologia para aumentar suas chances de encontrar um par: deslizar rápido da imagem de um pretendente para outra interfere de forma negativa na percepção sobre a pessoa, por exemplo

Se você já chegou a escolher uma foto para seu perfil em um site ou aplicativo de encontros online, provavelmente procurou escolher uma imagem que refletisse algumas de suas principais características positivas – energia, bom humor, simpatia, afetividade. E beleza, claro, afinal ninguém pode ser criticado por investir no melhor ângulo ou sorriso mais luminoso para atrair possíveis pretendentes. Ainda assim, as pessoas que veem sua foto provavelmente não estão avaliando sua personalidade de modo preciso. Um novo estudo constatou que um vídeo breve costuma deixar uma primeira impressão bem mais próxima da realidade.

Para chegar a essa conclusão, pesquisadores na Universidade do Texas, em Austin, projetaram um experimento no qual promoveram uma série de encontros às cegas de conversações rápidas entre um grupo de aproximadamente 200 homens e mulheres. Também tiraram fotos dos participantes, imitando aquelas encontradas nos sites e aplicativos de encontro, e gravaram vídeos curtos dos participantes para ver que tipo de primeiras impressões as pessoas formam em cada contexto. Para cada situação, os voluntários classificaram aqueles que “encontraram”, levando em conta características como atratividade, humor, inteligência e outras qualidades que costumamos detectar – julgar – em questão de segundos. As conclusões dos pesquisadores foram apresentadas neste ano durante o Encontro da Sociedade para Personalidade e Psicologia Social, em San Diego.

As avaliações dos três grupos revelaram que os indivíduos eram mais propensos a concordar a respeito das características da outra pessoa se a encontrassem pessoalmente ou assistissem a um vídeo. Mas, quando só tinham uma foto para se basearem, os classificadores utilizavam mais as próprias convicções e esquemas para fazer julgamentos. “Quando alguém descreve uma imagem estática, revela mais sobre aquele que observa do que a pessoa na foto”, diz o pesquisador sênior Paul Eastwick, professor associado de psicologia da Universidade do Texas.

Segundo os cientistas, o motivo pelo qual tiramos conclusões distorcidas a partir de fotos é o fato de que a informação limitada contida em uma imagem estática nos remete a um estado mental abstrato. Tendemos a “preencher lacunas” e, para isso, nos baseamos em nossa experiência e expectativas passadas. Já um vídeo apresenta detalhes dinâmicos que capturam nossa atenção e rapidamente revelam dimensões sobre a personalidade de uma pessoa – mesmo que o clip tenha apenas alguns segundos. O sorriso, a voz, os gestos de alguém, por exemplo, fornecem pistas instantâneas que nos levam a perceber se a pessoa é agradável, confiável e autoconfiante.

Obviamente, impressões vivas são as mais poderosas. “É importante que, entre a conversa virtual e o primeiro ‘real’ em um café ou bar, as pessoas enviem um vídeo uma para a outra para que tenham uma ideia mais autêntica uma da outra”, diz Eastwick. Enquanto isso, empreendedores espertos já estão criando aplicativos de encontros baseados em vídeos, e não em fotos. Ele comenta que os especialistas que oferecem essas mídias já sabem disso, e, em breve, as fotos devem mesmo ser substituídas pelos vídeos.

PACIÊNCIA, POR FAVOR!

Em termos ideais, qualquer encontro que possa, pelo menos potencialmente, se transformar num relacionamento amoroso merece um novo olhar, não afetado por aquilo que achamos ou experienciamos com a última pessoa de quem nos aproximamos com o mesmo objetivo. Na prática, porém, não é tão fácil ter essa isenção, especialmente na hora da “paquera virtual”. Novos estudos sugerem que talvez não estejamos dando aos potenciais candidatos ao romance uma justa oportunidade quando mudamos rapidamente, abrindo outras telas, ou deslizamos de um perfil ao outro nos aplicativos de encontro e sites da internet.

Em um estudo descrito em março na publicação científica Scientific Reports, voluntários do sexo feminino viam rostos de homens em uma tela por 0,3 segundo – aproximadamente o tempo de uma visualização muito curta em um aplicativo de encontro como o Tinder. Após a visualização, as mulheres avaliavam se a face lhes parecia atraente ou não. Os pesquisadores constataram que era mais provável que as imagens fossem avaliadas como atraentes se viessem após outras faces atraentes. Dois fatores causavam esse padrão: um viés de resposta, em que apertamos a mesma tecla da última vez, e um efeito perceptual causado, muito provavelmente, pelo curto intervalo permitido para as informações.

Estudos anteriores já haviam mostrado efeitos diferentes: pessoas que apareciam em fotografias eram consideradas pelos observadores, em geral, mais feias quando visualizadas próximas a retratos de desconhecidos atraentes. No entanto, no novo estudo, a exposição era tão breve que uma face individual não era completamente processada e, assim, adquiria qualidades da face anterior. A psicóloga Jessica Taubert, pesquisadora da Universidade de Sydney e uma das principais autoras do artigo, faz uma recomendação aos usuários de serviços de encontros online: “Tenham consciência de que seu cérebro tem recursos corticais limitados; por isso, vá devagar!”.

Em outro novo artigo publicado no Jornal de Psicologia Social Experimental, pesquisadores se perguntaram se os efeitos de contraste ocorriam quando se faziam inferências sobre a personalidade de alguém tomando por base uma imagem. Os participantes visualizavam dois perfis. Quando a primeira pessoa era percebida como insensível (capaz de frases como: “Falar sobre sentimentos e esse tipo de coisa me aborrece”), a segunda pessoa – “legal”, porém sem grandes atrativos – parecia muito mais atraente ao observador. Nos perfis reais, as pessoas podem não parecer tão abertamente indiferentes como nesse estudo, mas é possível que outros traços psicológicos influenciem negativamente nas decisões posteriores dos observadores e funcionem como verdadeiros baldes de água fria. Portanto, seja no Tinder, no OkCupid ou em qualquer outro dispositivo do gênero, vale a pena manter a mente livre e tentar visualizar cada perfil como um indivíduo único – antes de passar rapidamente para o seguinte.

Outra atitude que costuma ajudar é pensar que, mais que um perfil “na vitrine” virtual, o que temos diante de nós na tela do computador ou do celular é uma pessoa com sua história: com experiências, preferências, anseios, erros e acertos e, assim como nós, está disposta a ser um pouco mais feliz. E talvez seja alguém de quem valha a pena chegar mais perto.

Matthew Hutson e K. Sheikh

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