Papai Noel existe?

Deixar para trás ícones do imaginário infantil é um passo necessário do desenvolvimento psíquico, mas a descoberta da verdade pode ser dolorosa e causar desconfiança

Quando pensamos em presentes de fim de ano, é impossível deixar de lado o principal ícone dessa época, o simpático velhinho de barbas brancas. Milhões de crianças acreditam nele em algum momento de sua infância, mas há um momento em que essa crença é questionada. Deixar para trás ícones do imaginário infantil é um passo necessário do desenvolvimento psíquico, mas a descoberta da verdade pode ser dolorosa, principalmente quando os pequenos se sentem enganados por aqueles em quem mais confiam – uma decepção que pode influir na constituição das bases de relacionamento consigo mesmo e com o outro na idade adulta. A descoberta da ficção ocorre, geralmente, por volta de 6 anos. Nem todos se recordam do “desaparecimento” desse personagem, mas, entre os que conservaram alguma lembrança, muitos lamentam a desilusão que sofreram. E ela não vem sozinha.

O fim da primeira infância é acompanhado pela mudança dos sistemas de representação, pelo abandono de certa visão de mundo. É preciso deixar para trás um universo ao mesmo tempo terrível e encantado, o que gera perdas e ganhos. Desaparece o monstro no armário, mas também a fada capaz de realizar os nossos desejos.

A fase em que os pequenos acreditam em Papai Noel tem importância no processo de amadurecimento. Já o fim da crença no bom velhinho pode ter reflexos nas relações que a criança manterá com as pessoas que estão à sua volta – e que, ainda que com boa intenção, mentiram para ela. “Não raro, tendemos a menosprezar a capacidade lógica dos pequenos, embora seja justamente na qualidade de ser racional que a criança adere a esse mito, inacreditável aos olhos do adulto – e, numa nova etapa do desenvolvimento cognitivo, se liberta dele”, afirma o professor Gérald Bronner, do Departamento de Ciências Sociais, Práticas Sociais e Desenvolvimento da Universidade de Estrasburgo, na França.

Para descrever esse importante momento na mudança do sistema de visão de mundo, o sociólogo realizou uma pesquisa com 142 crianças. “Os pequenos disseram, durante as entrevistas, que a razão principal que levou tantos deles a aceitar um mito tão espetacular é que lhes foi proposto pelos pais, e como acreditam naturalmente em tudo o que dizem os adultos com quem têm laços afetivos fortes, não duvidaram da história”, diz Bronner. Faz sentido: boa parte das coisas que sabemos foi contada por aqueles em quem depositamos a nossa confiança.

“Os pequenos não têm meios para construir as próprias representações de mundo, a não ser baseando-se nas únicas fontes de informações de que dispõem. Pelo menos em um primeiro momento, sua vulnerabilidade a essa crença cresce na medida em que parentes próximos, professores e colegas parecem acreditar em Papai Noel”, explica.  Os relatos das crianças revelam três fatores significativos para o abandono dessa crença: dissonância, concorrência e incoerência, que costumam se mesclar.

Segundo o pesquisador, o primeiro aspecto se caracteriza pela presença de um elemento externo que contradiz, enfraquece e por fim destrói a credibilidade do mito. O segundo indica a situação na qual o mito é colocado em discussão pelos outros. Os principais veículos de dúvida são os colegas de escola – em 50% dos casos –, mas também os pais muitas vezes contribuem para destruir a crença: alguns só confirmam as dúvidas da criança, outros revelam de repente a verdade, como em um ritual iniciático. O terceiro ponto, a incoerência, caracteriza-se pela presença de um elemento interno que intervém na crença e coloca o mito em discussão. A ruptura pode ocorrer em seguida à análise dos elementos fantásticos da lenda, que acabam, de repente, parecendo inverossímeis.

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